Acordo com fumo a invadir-me as narinas. Os meus olhos piscam, não os consigo manter abertos. É quase impossível respirar... A temperatura é insuportável. Os pelos dos meus braços desfazem-se. Uma onda de fogo vinda de baixo atinge-me, dispo as roupas que tenho em chamas. Choro em agonia soltando um grito silencioso, sinto o rosto como que a derreter. Cambaleio em desespero, buscando oxigênio mas numa direção não definida. "Mãe, pai, Bianca“... Tenho de chegar a eles. Como que por instinto encontro a saída do quarto, a minha perna fica presa quando o chão de madeira cede parcialmente. Vejo a Bianca envolta numa bola de chamas numa estridente agonia que me fura o coração. As minhas lágrimas secam assim que se formam. Olho o corredor e vejo um corpo negro no chão. Não sinto forças para lutar, sinto-me presa a este chão por uma força que não entendo. Todo o meu mundo, toda a minha vida, está em chamas!
Chamas como línguas vermelhas e aguçadas, quentes e abrasadas. É sempre assim. Quando me sinto no limbo, (entre o que devo ou não fazer) penso sempre no inferno e não sei explicar porquê. Continuo?
Ainda estou a pensar se continuo em frente, ou se viro para a direita. Melhor mesmo, só para outro país... Acabei de me queimar com o cigarro. (Não, não tenho dessas taras). Um palmo mais à frente e estaria a colocá-lo no cinzeiro... Virei realmente para a direita porque fraquejei.
São os nervos agora. Consigo senti-los à flor da pele.
Estou a chegar e já só me apetece desistir da idéia e voltar para trás... Ai! Hoje teria sido um bom dia para não ter saído de casa.
Hoje, se não estivesse com tanta saudade dele, teria sido um bom dia para ter ficado na cama.
Ver pessoas que deviam ficar enterradas no passado é sempre desconfortável. Bem, pelo menos para mim.
O meu corpo cede, lentamente sinto-me a desistir. Ouço uma voz que me chama, é o meu pai que irrompe pelas chamas pegando em mim, soltando-me. Volto-me para o abraçar mas ele já lá não está. Vejo-o ao longe tentando libertar a Bianca das chamas e elas tomam-no em segundos, no momento em que o chão cede e os vejo desaparecer à minha frente.
O meu pai, a minha mãe, a Bianca. Todo o meu mundo destruído enquanto eu ainda estou nele.
No meio de um calor que não sinto, gelo no local onde estou. O meu mundo ruiu e sem ele não tenho onde viver.
E era mesmo isso que eu ia fazer. Mas antes, só queria descansar...
Acordo da alucinação, lágrimas.
Já longe do desconforto, chego a casa e dirijo-me para a sala. Um copo de vinho para acalmar é sempre reconfortante. Pego numa garrafa ao acaso e abro-a.
Sentei-me no sofá com os olhos postos no ecrã da televisão desligada, e fico a olhar para o meu reflexo.
O vinho não é nada de especial. É alentejano e tinto, (embora na garrafa esteja escrito que a cor é de um "rubi intenso"), e alguém mo ofereceu recentemente. Acho eu...
E já estou a ficar com sono. Grande vinho!
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