O amor deve ter tirado férias. Foi embora e bateu com a porta, deixou as roupas no armário, deixou a cama por fazer. Foi embora e não disse quando voltava. Não deixou bilhete na geladeira, não levou memórias nem recordações. Deixou as gavetas do armário abertas, deixou o rádio e a televisão ligados. Foi embora e não disse quando voltava.Ontem esperei a noite toda por ele, não apareceu. Amanha vou trabalhar, mas venho cedo para casa para ver se o encontro.
Foi embora e não disse quando voltava, deve ter-se esquecido. Deve estar sentado num banco de jardim com saudades minhas, deve estar a pensar em mim. Sim, ele está a pensar em mim. Esqueceu-se de avisar. Esqueceu-se de levar as roupas e de fazer a cama. Esqueceu-se de deixar um bilhete e esqueceu-se de desligar o rádio e a televisão. Não levou as memórias nem as recordações porque vai voltar, não as ia deixar para trás.
Eu não o vi sair. Estava demasiado perto dele para o ver seguir o caminho inevitável. Estava demasiado embrulhada no sabor dos dias para pressentir que a noite se aproximava. Eu não vi nada.
É sempre assim quando o amor resolve virar as costas; pensamos sempre que não, que não vai acontecer, nunca, jamais, pensamos tê-lo bem preso no nosso abraço, bem aconchegado nas nossas mãos. Um dia olhamos para o lado e ele já não está lá, nem aviso de regresso, nem “até já”, só a certeza do bilhete de ida para um lugar que desconhecemos.
Vou passando o tempo entre a janela do quarto e o meu lugar na cama, à espera de ouvir a porta abrir-se de novo, à espera de escutar, de novo, os passos do amor que se foi sem que nada o fizesse prever. Mas ele volta. Senão teria levado as memórias consigo, senão a cama estaria feita, a roupa não repousaria no armário, a televisão estaria em silêncio. Resta-me esperar. Não há mais nada para dizer – o amor espera-se sempre em silêncio.

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