Hoje tivemos uma aula, e esse professor se esforçava demais, e fazia muitas perguntas, e todo mundo chegava na hora de ir embora, e como sempre eu me senti comovida, eu sempre me comovo com frustrações e humilhações alheias, ele parece ser sozinho, sua blusa não estava passada, seu dedo não tinha anel de casamento, noivado nem nada do gênero. Espero que alguma coisa o conforte a noite, que ele não tenha chegado a esse ponto da vida, e descubra que não tem um legado. É preciso ter filhos, esposos e um par de chinelos desbastados para se ter um legado? Um dia eu vou achar um lugar aonde eu ache confortável envelhecer e morrer? Uma panacéia para essa claustrofobia de caber em menos de um século? Um dia eu vou querer ser enterrada lado a lado de algum ser estimado e que de nossas vísceras nasçam flores, frutos? Como as pessoas dão um passo depois o outro depois o outro depois o outro? O que motiva uma tentativa frustrada? Já se nasce morrendo, certo? O que traz serenidade pra mentes em decomposição? Porque respeitamos a gravidade se o mais razoável mediante circunstancias era ir à direção oposta? Simplesmente cair no espaço e implodir com o sangue fervendo nas veias?
Eu tenho sonhado que minha cabeça não se sente confortável nesse corpo.
Eu queria saber a verdade. A verdade sobre tudo. Queria poder enxergar a coisa além da própria coisa. Queria não estar preciso nesse vértice espaço x tempo. Queria poder ir pra trás e muito pra frente.
Não é você que vai parar minha dor. Essa tarde eu dormi, um sono escuro maciço quase sufocante, sonhei com corações fora de corpos ainda pulsantes. Válvulas mitrais. Válvulas bicúspides. Tricúspides, artérias, aortas. Se eu tivesse um coração eu poderia amar você para sempre. Eu gostaria de amar você para sempre. Mas esquecer é conveniente.
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