segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Legado - Carlos Drummond de Andrade.


Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E mereço esperar mais do que os outros, eu?

Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,

uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso

na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho. 


Hoje o meu véio faria 109 anos. Ele que se perguntava num poema de 1951: "Que lembrança darei ao país que me deu tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?"
Ah meu véio, tu nem imaginava, mas tu se tornou eterno e amado por seu povo. E como eu te amo. 

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