segunda-feira, 8 de agosto de 2005

Assisto à minha passagem... diverso, móbil e só...

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou...

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu?!?!"
Deus sabe, porque o escreveu...

Fernando Pessoa


Algo mais: “Quando nasci, um anjo torto,desses que vivem nas sombras...sabia que sempre seria só...”

Ao som de: Quatro estações: A Primavera. – Vivaldi (Orquestra Filarmônica de Berlim.)

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