sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Rainha da Decadência.


Meu querido espelho... O que você pode ver dentro de meus olhos cegos? Um mar de decadência, devo presumir. Uma tão amarga chuva de solidão. Diga-me como eu sou.
Mas é claro, você é apenas um espelho, um reflexo distorcido do que as pessoas chamam de real, você não pode falar. Porque converso com você então?! Será a falta de pessoas ao meu redor? Estou eu tão desesperada assim?! Quem não estaria, depois de ser aprisionada em um mundo onde há apenas a completa escuridão...
Um dia eu sorri para você, espelho... Arrumei-me para um grande dia, e pedi sua opinião sobre a minha aparência. De que adianta preocupar-me com a minha aparência agora? Minha pele que um dia fora pura maciez, é agora repleta de rachaduras, como se estivesse prestes a se quebrar. Meu cabelo que um dia fora sedoso como o pelo de uma pantera, agora tem a textura de teias de aranha.
O que posso fazer agora senão recolher-me em um canto, e dialogar com seres inanimados? Eu, que um dia fui chamada de rainha, agora caída no chão vestida em trapos, como uma mendiga. Estou trancada em um pesadelo, e por mais que tente acordar, não conseguiria... Meus olhos não mais podem ver a luz. Perdi até mesmo a noção de noite e dia, neste lugar de estranhos e incessáveis ruídos.
Quebrarei você, meu querido espelho, para que nunca possa contar aos outros sobre a minha atual condição. E quando os pedaços de vidro espatifarem sobre o chão, escolherei apenas um, para representar a minha queda.
E serei proclamada para sempre Rainha da Decadência.


Algo mais: "Eu quebrei meu espelho e cortei-me com os estilhaços… Porque olhar tanto no espelho se ninguém vai te procurar?!"

Ao som de: Straight To Hell - The Clash (The Story of The Clash - Vol.1)

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